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Linguajar Pantaneiro quase extinto: vocabulário definia gado e manejo dos Peões

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Pantaneiro, João Costa Filho, peão renomado conhecido como João Costinha, 85 anos, está aposentado e mora em Cáceres.

Foto: Divulgação

O povo nativo do Pantanal criou a sua linguagem coloquial, que se encontra cada vez mais rara

O povo nativo do Pantanal criou a sua linguagem coloquial, que se encontra cada vez mais rara.

Um dos exemplos é o gado selvagem e o manejo dos mesmos desde a chegada dos bovinos europeus, por volta do final do século 17 na Planície Pantaneira, até meados da década de 1980. Ainda havia numerosos rebanhos de gado “orelhá”, ou baguá.

Para capturar essas reses, os peões formavam comitivas próprias com o objetivo de apreender o maior número possível de animais. A essa atividade se dava o nome de “bagualhação”. Exemplo: “Cadê João Costinha?”, indaga alguém. A resposta viria da seguinte forma: “João Costinha está com os peões guapos bagualhando gado orelha na Fazenda Orion, do Luiz Lacerda”.

Para a caçada aos baguás, a peonada despertava nas madrugadas, entre 3 horas da manhã, para pegar o gado no “maiadô”, local onde o rebanho pernoitava.

Utilizavam cavalos albinos que chamavam de “gazo”, que enxergavam no escuro das madrugadas.

Os peões desenvolveram uma técnica indígena para atrair o gado a uma espécie de curral improvisado, batizado de “calefon ou logradouro”, onde deixavam sal ao centro e espetos de tabocas invertidos na entrada. Ao tentar sair, as pontas afiadas das tabocas impediam, daí “logradouro”.

As Descalvados eram uma verdadeira “faculdade” para os peões. Aprendiam a domar cavalos redomões (selvagens), também abatiam reses e eram hábeis lançadores.

É do povo pantaneiro que decorre o ditado “molha mão”: quando um peão errava a laçada, o laço molhava, daí o termo que desqualificava o peão para lida de vaqueiro.

Exigia-se também dos peões habilidades para trançar o seu próprio laço, aproveitando o couro para a tralha de montaria.

Um manhadô era indispensável na cabeça do Santo Antônio* (vide explicação ao final da redação). Essa peça servia para arrear o gado capturado até a chegada de reforços com o manejo de sinuelo. Às vezes, o gado ficava até 48 horas imobilizado, sem o afogador, ou seja, de maneira a não travar a sua ruminação e morrer.

Como as propriedades no Pantanal eram imensas e as cercas de divisas precárias, os fazendeiros desenvolveram um tratado conjunto: cada rebanho possuía um estilo de cortes e diferentes lados da orelha.

De maneira que cada peão sabia a quem pertencia aquela marca na orelha do gado.

Quando se dizia: “Archelau Batista, junto com sua peonada, encontrou um rebanho com 93 reses no Retiro da São Bento do Quebra Prato; todo gado nelore de mamando acaducando era ‘orelhá'”, o que significava que aquelas reses não possuíam dono. Nesse caso, era de quem achasse.

Os sinais a faca nas orelhas foram banidos. As cercas na atualidade são mais resistentes e as propriedades menores, o que facilita o controle e o manejo dos rebanhos.

![] João Arruda é jornalista, geógrafo e pesquisador em Caceres, é filho, neto, bisneto de brancos com duas avós uma Bororo e outra Guató

Glossário de termos pantaneiros

Gado Orelha: sem dono

Baguá: gado selvagem

Molha Mão: peão inábil

Logradouro: curral improvisado para capturar baguás

Bagualhar: significa trabalho na caçada de gado baguás

Cabeça do Santo Antônio: parte superior frontal da sela

Manhador: uma sola de couro bovino acima de metros que fica na cabeça do Santo Antônio, utilizada para arrear a res selvagem

Maiadô: local onde o gado passa a noite

Matula: comida levada para a lida no campo

Vaqueta: novilha

Marruco: touro

Erado: touro velho

Sinuelo: touro capão treinado para arrastar outra rês

Famanás: peão que desmancha festas, encrenqueiro

Catité grande: gigante

Histio: bastante, muito

Lepa: exagerado, imenso

Quebra Torto: lanche reforçado antes do almoço

Jacuba: leite com farinha e carne seca

Aúfa: infinito, muitos

Asa Dura: aeronave

Guapo: peão habilidoso no laço, na doma, na flecha e no anzol

Muxixo: gado que se alimenta de pasto nativo chamado orgânico

Gazo: cavalos albinos

Tábua de chiqueiro: coisa ruim

Ponta de corda: sujeira

Kú de Onça: é da culinária uma paçoca com banana

Mel Coado: gente elegante

Canela de vidro: pessoa polida, gentil

Fassvaoooo: serve para tudo (tempo, pescaria, bagualhação etc.) Peixe é amigo

Lua Preta: gente que quer aparecer muito

Eguariço: cavalo mal castrado

Educado na França: sujeito grosso, tosco

Peitoral de Angico: pedir fiado

Casca de páratudo: mulher mal educada

Carne de Cágado: pessoa que não concentra, mexe toda hora

Deita Capim: última chuva que fecha o verão

⁠Castiça: serve tanto para bonito quanto para o feio

Zinga: taco de madeira longa usada para impulsionar embarcações.

Morro Amarrando Cabeça: sinal de chuva grande

João Arruda, autor da reportagem é filho de peão pantaneiro, nasceu na Fazenda São Bento do Quebra Prato.

Por: João Arruda | Cáceres

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