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Mais um dia com Donald Trump

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O presidente dos EUA, Donald Trump, assina ordem executiva que impõe tarifas recíprocas.

Foto: Saul Loeb/AFP

Trump está levando a um cenário de pânico, que relembra as crises financeiras do passado. E esse é só o começo do governo dele

O presidente Donald Trump está provocando uma colossal destruição de riqueza por um erro econômico grosseiro. O que está diante de nós é o risco de um colapso do comércio global, com desorganização das cadeias de suprimento, como houve na pandemia. Só que provocado pela decisão de um governante. As quedas de ontem na Ásia lembravam as que ocorreram na crise na região em 1997. A volatilidade e o ambiente tomado por rumores pareciam os da crise financeira de 2008. As más lembranças têm sido revisitadas nos últimos dias.

No mercado ainda circulam teses de que, talvez, o presidente Donald Trump recue e deixe de adotar as medidas que vem tomando. Ontem, ele deu ultimato à China. Trump se baseia no comportamento de alguns países do Sudeste Asiático que têm pedido para negociar, prometendo reduzir as próprias tarifas cobradas dos Estados Unidos. A China, contudo, tem força para não aceitar ultimatos.

No mercado americano, gestores que apoiaram Donald Trump fazem previsões sombrias. O CEO da BlackRock, Larry Fink, disse que a maioria dos gestores com quem ele fala acha que os Estados Unidos terão recessão. O Financial Times definiu a conjuntura como “um momento de extremo perigo, enquanto a investida do presidente provoca desordem e aflição”.

Do otimismo para a apreensão: 'A gente imagina que ele (Trump) não seja tão maluco quanto parece', diz analista que atua em NY O que já aconteceu no terceiro dia de queda e volatilidade nos mercados globais está deixando sequelas na economia. “Reservas e fundos de pensão sofreram golpe brutal. Trata-se de um episódio de destruição de riqueza gratuita, desnecessária e ilógica que lançará uma sombra sobre a atratividade dos mercados dos Estados Unidos como opção de investimento. E pode ficar pior, porque os fundos de hedge e outros investidores também estão sofrendo”, segundo o Financial Times.

O economista Livio Ribeiro, da FGV, afirma que o fato de as bolsas derreterem, como ocorreu ontem na Ásia e, em certa medida, na Europa, não surpreende, porque são ativos de risco. O problema, explica, é que, se a escalada continuar, será razoável imaginar que haverá uma recessão global.

— Não podemos mais falar de incerteza, porque já tem o início de um embate, muda o patamar da discussão. As coisas estão dando errado e é preciso buscar alguma proteção. Por isso, há uma grande rotação de portfólio no mundo.

O mundo vive neste momento um choque que desorganiza a cadeia produtiva e a estrutura de oferta no mundo. Há um efeito inflacionário, mas há também um movimento de desaceleração da economia. Ribeiro definiu como choque binário.

O dia começou com o pânico, com circuit breaker em Tóquio e queda em Hong Kong de 13%, só vista em 1997, na crise da Ásia. Ao longo do dia as quedas foram atenuadas. No começo, porque houve um rumor, desmentido, de que Trump iria suspender o tarifaço por 90 dias. Depois, outros fatores entraram nas análises e a bolsa americana fechou perto de zero.

— Se não tiver notícia nova, o mercado para e começa a fazer as contas e se perguntar o que vai acontecer — diz o economista Luis Otávio Leal, da G5 Partners.

A muralha americana: O extremismo protecionista de Donald Trump destrói a arquitetura do comércio global construída desde o fim da Segunda Guerra Ele diz que alguns economistas avaliam que um dos efeitos colaterais de toda essa crise pode ser uma desaceleração da economia. É isso que está derrubando os preços das commodities, o que terá um efeito deflacionário.

— Passado o susto, o mercado começa a ver as nuances da situação. Muita gente já está dizendo aqui no Brasil que a Petrobras terá que reduzir o preço dos combustíveis. Se não fosse a valorização do dólar era para o preço da gasolina estar 10% a 15% mais baixo — diz Leal.

O mercado, segundo ele, está perdido e sem referência de preços, tanto que, na sexta-feira, o índice que mede a incerteza chegou ao maior nível desde a pandemia. Por mais que Trump eleve as tarifas, ele não muda a realidade econômica.

— A China produz 32% de todos os produtos consumidos no mundo e consome 12% de todos os bens consumidos no mundo. Os Estados Unidos consomem 29% de tudo o que é produzido e só produz 15%. Ou seja, a economia chinesa e a economia americana eram complementares, equilibravam o mercado global.

Nesses três pregões, a Bovespa perdeu 4,34%, a Nasdaq 9,37% e a S&P 9,29%. Mas esses números dizem pouco da confusão instalada. Commodities, ações e moedas estão voláteis. As crises anteriores tinham fatos determinados. Esta é a criatura inventada na Casa Branca por um governante que está há 77 dias no cargo e tem ainda três anos e nove meses pela frente.

Fonte: oglobo.globo.com

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